Aposentado endividado: limite de 45% no consignado do INSS, proibição de assédio na oferta de crédito, consignado não reconhecido (Tema 1061 do STJ) e repactuação pela Lei do Superendividamento.

Resposta rápida: o aposentado ou pensionista que não consegue pagar as dívidas sem comprometer o básico pode pedir a repactuação de todas elas pela Lei do Superendividamento, e desde abril de 2026 as parcelas do consignado entram na conta do mínimo existencial. Além disso, o Código de Defesa do Consumidor proíbe pressionar o idoso a contratar crédito, e o desconto no benefício do INSS tem teto de 45%.

Para quem vende crédito, o aposentado é um cliente cômodo: o benefício cai todo mês, o desconto em folha garante o banco e a ligação oferecendo "dinheiro liberado" chega antes de qualquer explicação sobre juros. O resultado aparece no extrato: três, quatro consignados, um cartão consignado que nunca termina de ser pago e pouco sobrando para remédio e comida.

O que a lei proíbe na oferta de crédito ao idoso

A Lei 14.181/2021 incluiu no CDC regras próprias para a oferta de crédito. O artigo 54-C, IV, proíbe "assediar ou pressionar o consumidor para contratar o fornecimento de produto, serviço ou crédito, principalmente se se tratar de consumidor idoso, analfabeto, doente ou em estado de vulnerabilidade agravada ou se a contratação envolver prêmio". Bem antes disso, o artigo 39, IV, já tratava como prática abusiva prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, para impingir-lhe produtos ou serviços.

O artigo 54-D manda o banco, antes de contratar:

  • informar e esclarecer o consumidor, "considerada sua idade", sobre a natureza do crédito, todos os custos e as consequências do atraso;
  • avaliar de forma responsável se ele tem condição de pagar, consultando os bancos de dados de crédito;
  • informar quem está financiando e entregar cópia do contrato.

O descumprimento tem consequência prevista na própria lei. Pelo parágrafo único do artigo 54-D, o juiz pode reduzir os juros, os encargos ou qualquer acréscimo ao principal e esticar o prazo de pagamento, conforme a gravidade da conduta do banco e as possibilidades do consumidor, sem prejuízo de indenização por danos materiais e morais. Nesse caso o que se examina é a forma como o crédito foi oferecido, além da taxa de juros.

Duas decisões do STJ de 2026

Em junho de 2026, a Terceira Turma do STJ manteve a proibição de correspondentes bancários visitarem, sem pedido, a casa de aposentados e pensionistas do INSS para oferecer consignado. Para a relatora, ministra Nancy Andrighi, a visita não solicitada é assédio de consumo: reduz a margem de reflexão do idoso e o pressiona a aceitar na hora. O banco responde pelo que o correspondente faz em nome dele, e o contrato fechado em casa dá direito de desistir em sete dias, como toda contratação fora do estabelecimento (CDC, art. 49). Se o idoso pediu a visita, a situação é outra (REsp 2.226.633, julgado em 2 de junho de 2026).

Um mês antes, a mesma turma anulou empréstimos feitos por um homem analfabeto no caixa eletrônico. A turma tratou como exigência de forma as formalidades do art. 595 do Código Civil para o contrato de quem não sabe ler, a assinatura a rogo e as duas testemunhas, que cartão com chip e senha não substituem; ter usado o dinheiro não convalida o contrato. O banco teve de devolver o que descontou do benefício, de forma simples e com compensação do valor que liberou (REsp 2.016.029, julgado em 12 de maio de 2026).

Quanto o INSS pode descontar do benefício

A Lei 10.820/2003 (art. 6º, § 5º, na redação da Lei 14.601/2023) limita os descontos de crédito no benefício de aposentadoria e pensão do INSS:

BenefícioTeto totalEmpréstimos e financiamentosCartões consignados
Aposentadoria e pensão do INSS45%35%5% para o cartão de crédito consignado e 5% para o cartão consignado de benefício
BPC/LOAS35%30%5% para os cartões

O banco que retém acima desses limites perde todas as garantias que a lei do consignado lhe dá (art. 6º, § 6º). O teto vale para o desconto no benefício; débitos de parcelas na conta-corrente seguem outra regra, explicada no guia da Lei do Superendividamento.

Consignado que você não contratou

Contra o consignado que o aposentado não reconhece, a prova da assinatura pesa sobre o banco. No Tema 1061 (REsp 1.846.649/MA, julgado pela Segunda Seção em 24 de novembro de 2021, relator o ministro Marco Aurélio Bellizze), o STJ fixou que, quando o consumidor contesta a assinatura do contrato que o banco juntou ao processo, é o banco que precisa provar que a assinatura é verdadeira. Quem não reconhece um consignado deve pedir o contrato ao banco por escrito, registrar a contestação e guardar os extratos do INSS que mostram os descontos.

Superendividamento: repactuar tudo de uma vez

Superendividamento é a impossibilidade manifesta de a pessoa de boa-fé pagar todas as dívidas de consumo sem comprometer o mínimo existencial (CDC, art. 54-A, § 1º). Pelo artigo 104-A, o idoso pode pedir ao juiz uma audiência com todos os credores ao mesmo tempo e apresentar um plano de pagamento de até cinco anos que preserve o mínimo para viver. Entram cartão, cheque especial, empréstimo pessoal, crediário, contas de consumo e o próprio consignado.

O mínimo existencial está fixado em R$ 600 por mês pelos Decretos 11.150/2022 e 11.567/2023. Em 23 de abril de 2026, no julgamento das ADPFs 1005, 1006 e 1097, o Supremo declarou inconstitucional o trecho do decreto que excluía o consignado desse cálculo. Para o aposentado, a mudança pesa: as parcelas descontadas no benefício passaram a contar na hora de verificar se sobra o mínimo, e a soma do consignado com o cartão pode bastar para enquadrar a pessoa na proteção da lei.

Uma ressalva do Estatuto da Pessoa Idosa: discriminar o idoso no acesso a operações bancárias é crime (art. 96), mas a lei diz expressamente que não é crime a negativa de crédito motivada pelo superendividamento da pessoa idosa (art. 96, § 3º). O banco pode, portanto, recusar crédito novo a quem já está superendividado, e continua proibido de pressioná-lo a contratar.

Que medidas o idoso endividado tem

  • Repactuação das dívidas por superendividamento (CDC, arts. 104-A e 104-B).
  • Revisão do cartão de crédito consignado (RMC) ou do cartão consignado de benefício (RCC), quando o idoso pensou ter feito um empréstimo comum e a dívida nunca diminui.
  • Anulação de consignado não contratado, com devolução do que foi descontado.
  • Indenização por desconto não autorizado de associação ou de financeira no benefício.
  • Redução de juros e encargos quando o banco descumpriu os deveres de informação e de avaliação responsável (CDC, art. 54-D, parágrafo único).

Documentos para reunir

  1. Extrato de empréstimos consignados do INSS (pelo aplicativo ou site Meu INSS) e o histórico de créditos do benefício.
  2. Contratos e extratos de cada banco, inclusive das faturas do cartão consignado.
  3. Comprovantes das despesas fixas da casa: aluguel, luz, água, remédios, plano de saúde.
  4. Protocolos de reclamação ao banco, ao INSS ou ao consumidor.gov.br, se houver.

Perguntas frequentes

Aposentado pode pedir repactuação por superendividamento?

Pode, como qualquer consumidor pessoa física de boa-fé. Desde o julgamento do STF de abril de 2026, as parcelas do consignado entram no cálculo do mínimo existencial.

Qual é o limite de desconto de consignado no benefício do INSS?

45% do benefício de aposentadoria ou pensão: 35% para empréstimos e financiamentos, 5% para o cartão de crédito consignado e 5% para o cartão consignado de benefício. No BPC/LOAS o teto é de 35% (Lei 10.820/2003, art. 6º, §§ 5º e 5º-A).

O banco pode ligar oferecendo empréstimo para idoso?

A lei proíbe o assédio e a pressão, principalmente com idosos (CDC, art. 54-C, IV); a oferta em si é permitida. O banco também precisa explicar os custos levando em conta a idade do cliente e avaliar se ele pode pagar (art. 54-D). Visita de correspondente em casa, sem o idoso ter pedido, o STJ já considerou assédio de consumo (REsp 2.226.633, 2026), e o contrato feito por telefone ou em casa pode ser desfeito em sete dias (art. 49).

Apareceu um consignado que eu não fiz. Quem prova?

Se você contesta a assinatura do contrato, o banco é que tem de provar que ela é verdadeira (STJ, Tema 1061).

O consignado de aposentado que não sabe ler, assinado a rogo, é válido?

É o que o STJ vai decidir no Tema 1.116. A Segunda Seção vai definir a validade do empréstimo consignado contratado por pessoa analfabeta "mediante instrumento particular assinado a rogo e subscrito por duas testemunhas" (REsp 1.943.178/CE e REsp 1.938.173/MT, afetados e ainda sem julgamento). Enquanto isso, vale a regra do Tema 1.061: se o aposentado contesta a assinatura do contrato apresentado no processo, cabe ao banco provar que ela é autêntica.

O banco pode negar crédito a idoso superendividado?

Pode. O Estatuto da Pessoa Idosa diz que a negativa de crédito motivada pelo superendividamento não é crime de discriminação (art. 96, § 3º).

Atendimento

O Gabriel Garcia Advogados Associados atende idosos, aposentados e pensionistas superendividados em todo o Brasil, a partir da sede em Porto Alegre. A página de atendimento em superendividamento e repactuação de dívidas explica como o escritório analisa o caso, e a de revisão de juros do empréstimo consignado trata dos juros.

Conteúdo informativo, sem promessa de resultado (Provimento 205/2021 da OAB). Cada caso depende dos contratos e das provas.

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